16.2.07

Entrevista

Caros leitores deste BLOG, antes de colocar o meu bloco na rua, deixo para vocês a entrevista feita com Gláucia Bon, ex-secretária de Saúde de Nova Iguaçu. A partir deste momento, me coloco como um súdito de Momo.

Ex-secretária de Saúde confirma: dinheiro do setor foi aplicado em fundos de renda fixa

Almeida dos Santos


Ela já foi subsecretária de Planejamento e Gestão, secretária de Trabalho e Assistência Social do governo Marcello Alencar, secretária de Planejamento da prefeitura de Itaboraí, secretária de Desenvolvimento Comunitário do governo Benedita da Silva, diretora de Assuntos Interministeriais do Desenvolvimento Social do governo federal, delegada federal de Desenvolvimento Agrário, secretária de Saúde e presidente da Companhia de Desenvolvimento de Nova Iguaçu (Codeni) na gestão Lindberg Farias (PT), e na área privada atua como consultora de multinacionais. Trata-se de Gláucia Bon, uma especialista em administração pública que re-solveu falar à TRIBUNA DA REGIÃO sobre o seu papel, tanto na campanha eleitoral quanto na administração atual. Na entrevista, concedida por e-mail, Gláucia confirmou que o dinheiro da Saúde repassado pelo governo federal esteve aplicado em fundos de renda fixa, conforme o jornal tem denunciado. Fez, ainda, uma avaliação dos motivos que emperram a máquina administrativa.

TRIBUNA DA REGIÃO - Como foi a sua aproximação de Lindberg Farias. Você, que ocupou um cargo do alto-escalão do governo Benedita da Silva, foi designada pelo PT para fazer a campanha do Lindberg?

Gláucia Bon - Eu fui apresentada ao atual prefeito Lindberg Farias por uma pessoa de meu relacionamento pessoal. Na época, a campanha ( em 2004) estava com uma certa dificuldade na elaboração do Programa de Governo (PG) e alguém que fizesse o link entre o PG e a produção de programa de TV. Embora seja uma das fundadoras do PT, não tenho uma relação de militância e subordinação com o partido e não recebi nenhuma designação para este fim.
TR - Qual foi a sua participação na elaboração do Programa de Governo do atual prefeito?

GB - Na verdade, o PT de Nova Iguaçu já vinha trabalhando em propostas setoriais, mas não avançava na elaboração de um programa mais consistente. Entre outras dificuldades, pela ausência de quadros com experiência na administração pública. Não só elaborei o Programa de Governo como fui responsável pelo Link entre programa e produção de Tv e rádio, que é baseada nas proposições contidas no PG.

TR - Inicialmente, quais foram os cargos que você ocupou na administração Lindberg Farias?

GB - O primeiro cargo que ocupei nesta administração foi o de sub-secretária de Saúde, secretária de Saúde, secretária especial do prefeito, presidente da Codeni.

TR - Comenta-se que Valcler Rangel Fernandes, que foi secretário municipal de Saúde, deixou o cargo por falta de autonomia administrativa. Você sucedeu Valcler assumindo a pasta. Sua saída do cargo se deu também por falta de autonomia administrativa para gerir o dinheiro destinado à Saúde?

GB - Não sei dos motivos que levaram o secretário Valcler e sua equipe a entregar o Cargo. A pedido do prefeito eu aceitei o cargo de subsecretária, para atuar basicamente no campo do planejamento administrativo e financeiro da secretaria. Na época o secretário tinha várias reclamações sobre a morosidade nos processos de aquisição de insumos e equipamentos que tramitavam na prefeitura, por outro lado os diversos setores da prefeitura alegavam que os processos não chegavam em tempo hábil ou estavam in-completos. Ao assumir como subsecretária, constatei que realmente havia problemas administrativos dos dois lados: na prefeitura e na secretaria, a grande maioria por deficiência das rotinas e dinâmicas estabelecidas. A minha saída deve ser atribuída ao corporativismo da área médica, em especial à equipe, na época, da direção do Hospital da Posse, que foi incansável em articular a minha saída.

TR - Hoje a área da Saúde vive uma crise sem precedentes. Isso seria pela má gestão do dinheiro destinado à pasta?

GB - Não tenho como fazer esta avaliação. Em minha passagem de cerca de 30 dias como secretária, cuidei basicamente de preparar editais e processos de compra, além de planejar a aplicação dos recursos com especial atenção aos prazos e à destinação das verbas “carimbadas”. Na época já havia problemas com os repasses para os serviços conveniados, que, mesmo neste curto período de tempo, eu consegui iniciar a regularização, mantendo constante conversação com os prestadores e o Conselho Municipal de Saúde.

TR - Rumores dão conta de que o dinheiro da Saúde estava sendo aplicado em fundos de renda fixa. Você sabe algo sobre isso?

GB - Ao replanejar a aplicação dos recursos, eu constatei que isto estava ocorrendo. Na verdade, na época, as secretarias de Governo (Fausto Severo) e Fazenda (Francisco de Souza) alegavam que os recursos estavam aplicados porque não havia processos para aplicação dos recursos.

TR - Aplicar dinheiro destinado para um fim específico, considerado de “verba carimbada”, em fundos de renda fixa não seria um ato de improbidade? Você chegou a alertar o governo sobre isso?

GB - Os recursos “carimbados” ou conveniados podem ser aplicados em poupança por um período não superior a 30 dias, salvo em casos especiais, na medida em que os recursos não podem ficar parados se desvalorizando. A questão é que se há credores desses recursos, como fornecedores e prestadores de serviços, neste caso cabe apenas o imediato pagamento.

TR - O prefeito Lindberg Farias deu muito poder ao secretário de Planejamento e Gestão, Fausto Severo Trindade. Essa poderia ser uma das razões que gerou uma crise interna e que paralisou a máquina administrativa?

GB - Não posso acreditar que a paralisação da má-quina administrativa possa ser atribuída a um único secretário, por mais poder que a ele seja atribuído. A questão pode estar na indefinição de estratégias, provocando idas e vindas nas decisões de governo. Este me parece ser o nó desta administração. As sucessivas trocas no quadro de secretários são, em minha opinião, uma demonstração dessa clara dificuldade de definição de uma política clara e eficaz de gestão


TR - Durante a campanha eleitoral, Lindberg fez acordos, o que é natural no processo político. Ele tinha algum acordo com você. Se tinha, qual era e se ele cumpriu ou não?

GB - Eu não tinha nenhum acordo com o prefeito. O que ocorreu foi que ao final da campanha ele me convidou para ser secretária e também participar da equipe de transição de governo. Naquela época eu era delegada federal de Desenvolvimento Agrário e precisei entregar meu cargo no governo federal. O que se sucedeu é que o prefeito ao montar a equipe definitiva, entendeu que eu não era um quadro necessário à sua administração.

TR - Você também foi da Companhia de Desenvolvimento de Nova Iguaçu. É verdade que está companhia aumentou a dívida trabalhista na gestão Lindberg Farias? Quanto estaria essa dívida, hoje?

GB - Quando assumi a Codeni, já havia uma dívida de INSS e FGTS, iniciada nos dois últimos meses do governo anterior (do ex-pre-feito Mário Marques), acumulando àquela altura cerca de oito meses sem re-colhimento, o que perdurou até a minha saída na medida em que não eram repassados recursos suficientes para esse fim. Não apenas o prefeito, mas também o secretário de Fazenda (Francisco de Sousa); o secretário de Governo (Fausto Severo Trindade), o procurador (Rodrigo Tostes de Allencar Mascarenhas) e outros membros do primeiro escalão tinham plena ciência da situação, uma vez que mensalmente este assunto era encaminhado em diversas reuniões, sempre sendo apresentado o cálculo atualizado da dívida. Não posso afirmar o montante atual da dívida, pois estou afastada desde abril passado.

TR - Algumas pessoas que participaram do processo eleitoral de Lindberg ficaram pouco tempo na administração. Nesse exemplo pode ser incluído o seu nome, o ex-vereador Maurílio Manteiga (PSDB) e até o do seu marido, Eduardo Abrunhosa, entre outros. O que houve para que estas pessoas deixassem o governo?

GB - Quem deve participar ou não da administração no Executivo é uma decisão única e exclusiva do prefeito.

TR - Hoje, como você avalia a administração municipal iguaçuana e qual nota você daria para ela?

GB - Já estou afastada desta administração. Não me cabe atribuir notas à administração de ninguém. Mas tenho certeza de que a população de Nova Iguaçu tinha muitas expectativas em relação a essa administração e está muito atenta a tudo que acontece. Quem vai dar a nota definitiva é o povo de Nova Iguaçu nas próximas eleições.

TR - Gostaria de fazer algumas considerações finais?

GB - Gostaria de agradecer ao povo iguaçuano pelo carinho com que me recebeu. Tanto na minha curta passagem pela Saúde, quanto na minha permanência na Codeni. Sempre fui tratada com muito respeito e afeto pelo povo desta cidade, pela Câmara de Vereadores, pelos conselhos e entidades civis e pela imprensa em geral. Esta é uma boa oportunidade de agradecer a confiança que me foi depositada e de afirmar que tenho muito orgulho de ter servido a este povo e a consciência do dever cumprido como administradora.

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